domingo, 8 de agosto de 2010

Carnaval



Origem

Há milhares de anos os camponeses contentes com a colheita festejavam seus deuses em cerimônias rituais coloridas e movimentadas: mascaravam-se imitando animais, numa tentativa de aproximação com a natureza, que tão amiga lhes fora. O enfeite dos corpos e a alegria das almas atravessaram tempos e culturas, insinuando-se nas tradições de todas as sociedades, qualquer que fosse seu grau de desenvolvimento: festejos ruidosos e turbulentos comemoravam todos os eventos que os justificassem; como um carnaval. Eram pagãs essa festas. Foram toleradas pela igreja Católica, durante a idade média, depois de ordenadas e regulamentadas. Mas os limites impostos adulteravam a natureza das festas. O uso de máscaras, contudo conseguiu sobreviver, embora com o passar do tempo acabasse se restringindo às camadas sociais de elite. Assim, em meados do século XIII os elegantes bailes de máscaras já se tornavam uma tradição. O povo, porém fazia sua festa nas ruas, com danças improvisadas e nenhuma sofisticação. Só no renascimento, as máscaras voltaram a se popularizar, difundindo-se também o uso das fantasias. Batalhas de bolotas de gesso ou de água também se incorporaram aos carnavais. Depois da metade do século XIX, o carnaval se generalizou de tal forma na Europa, que até Londres, as mais puritanas das cidades, o festejou sem constrangimento. No começo do século XX os carnavais quase desapareceram da Europa. Primitivamente, o carnaval ia de 25 de Dezembro, Natal, até o dia de Reis. A igreja Católica, quando regulamentou, marcou a data dos festejos para sete domingos antes da Páscoa. E foi num desses domingos que o carnaval chegou ao Brasil, vindo de Portugal. Sem submeter-se a essa data estritamente, começou a ser festejado em outras ocasiões: na chegada de um personagem importante, por exemplo. Armavam-se palanques, todos ficavam irrequietos, e até as mulheres, fato inédito, saíam as ruas, para ao menos presenciar os acontecimentos. A folia já chegou ao Brasil estigmatizada. Os hábitos carnavalescos Portugueses, barulhentos e violentos, transplantaram-se para a colônia. Principalmente o de entrudo, ou seja, as batalhas. Batalhas de ovos crus, de cartucho de pó, de panelas de vários líquidos; de tremoço, milho, feijão, soprado por tubos; de areia, quinquilharia e, sobretudo, litros e litros de água.
Para puxar o Cordão
Os Negros vieram também do Congo. E puxaram seus ritos, ritmos e danças. Nas festas saíam às ruas, para divertir os Senhores, que assistiam as suas exibições passivamente, sentados nos balcões, isolados nos terraços. Os negros desfilavam com máscaras e fantasias, executando seus rituais, já bastante modificados por tanto tempo de escravidão no Brasil sob a influência do Catolicismo. Principalmente o ritual dedicado a Senhora do Rosário eram "adaptado" para os festejos carnavalescos: consistia na repetição de uma cantiga, provocada por um estímulo daquele que seria uma espécie de "solista". Havia sempre, também, uma coreografia e outras músicas. Daí provavelmente se originou o "cordão" . Era uma roda de foliões que se davam as mãos e eram "puxados" por outra roda. No começo os cordões eram uma mistura de Reis, Rainhas, Bichos, Índios, Palhaços, Diabos, em alegre confraria, os pés irrequietos marcando os compassos no chão, o indivíduo que guiava ia fazendo malabarismos e acrobacias. Em geral possuíam um conjunto de instrumentos musicais, principalmente os de percussão, reminiscências das fontes Africanas: tambor, tamborim, reco-reco e cuíca. E com as tribos africanas fossem totêmicas, ou seja, acreditassem no poder sobrenatural de certas flores, plantas, animais, e fenômenos naturais, adotando seus nomes os cordões guardaram essa característica; o primeiro deles, que em 1885 foi licenciado pela polícia para sair no carnaval, chamou-se Flor de São Lourenço após este foram surgindo outros.
A hora do rancho
Macaco é Outro era o nome de um dos primeiros ranchos. Saiu à rua em 1908. Já em 1908 os ranchos tinham substituído definitivamente os cordões. A diferença entre os dois grupos é que no desfile do rancho, tudo gira em torno de uma história, de um enredo. Isso remonta ao folclore americano, às danças que simulavam a coroação da "rainha". Havia também o "rei" e toda uma "tribo" que lhe prestava homenagens, cantando e fazendo trejeitos com o corpo.
Fantasia
Dois cariocas saíram à rua: um trajava roupas de fazendeiro; o outro os farrapos dos escravos, as correntes e tudo mais. Esse chorava protestando contra a violência do amo que o ameaçava e açoitava cada vez mais. Isso foi na época da campanha abolicionista, e os dois personagens eram foliões de acurado senso crítico. É que os carnavais serviam para a formulação de críticas, facilitadas pelo uso de fantasias. Depois, a primeira guerra mundial e a subseqüente crise financeira atingiram o carnaval brasileiro: as fantasias se simplificaram, tornando-se mais modesta. Entretanto ganharam em originalidade tornando-se mais típicas, mais regionais. Não foi só essa a modificação que o tempo e as transformações históricas trouxeram ao carnaval. A introdução do automóvel, por exemplo, redundou no advento do "corso". Foi assim: no Domingo gordo do carnaval de 1907, por volta das 17:00 horas, adentrou a Av. Central, na Cidade do Rio de Janeiro, o automóvel presidencial: transportava as filhas do presidente Afonso Pena. O veículo fez todo o percurso da avenida, de ponta a ponta, tendo parado, na volta, em um prédio de cujo balcão a família presidencial assistia às brincadeiras de rua. Logo depois, vários carros iam e vinham pela avenida. Os foliões mais audazes começaram a lançar para dentro dos outros automóveis, confetes e serpentina, lança perfume, flores. Estava instituído, assim mais um folguedo carnavalesco: O Corso.
Extraído da coleção CONHECER da Ed. Abril Cultural
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OPINIÃO

Carnaval Poesia e Dor
Uma das maiores manifestações populares, o carnaval, é feita de encanto, beleza e fantasia. É o povo que faz a festa, que transforma suas poucas energias já defasadas pelo subdesenvolvimento, em brilho, cor e "alegria''. Talvez pela herança histórica ele tenha chegado até aqui, pois o nosso povo raramente vai às ruas requerer outras coisas e corno diz o provérbio: "tudo no Brasil acaba em samba".Se forem as velhas e boas marchinhas que nos trazem o carnaval, certamente não são elas que nos farão aturá-lo daqui para frente: há muito que o carnaval se tornou um grande negócio, é um evento que produz muito dinheiro. Os donos do país querem muito carnaval, porque através dele o povo se aliena e os seus bolsos se enchem.Entretanto, quem pula, quem desfila, quem faz e acontece é o povo. Esse povo que durante quatro dias realiza os tão bem cultivados sonhos dos outros trezentos e sessenta e um dias, é o povo que anela por esperança, porque está seco de tanta dor; já não suporta mais o pesado fardo ola opressão, da miséria e da violência gerada por ela. E... Esse povo que mata suas crianças esteriliza suas mulheres e maltrata seus idosos, também brilha em quatro breves dias de mentira. A sua luta maior é tornar eterno o mais efêmero dos seus prazeres. Mas não adianta, logo chega a quarta-feira e todas as mágoas afogadas voltam à tona. Agora só resta amargar a sua dura e cruel realidade: a vida continua vazia, a alma está mais seca e a dor presente. São as cinzas. Pobre povo! E a igreja do Deus vivo? O que faz nesses quatro dias de adoração ao deus da morte? A igreja se retira, não pode se misturar. "Vamos fazer um retiro espiritual para o crescimento e edificação das famílias da nossa igreja'', bradam os presidentes de retiro às vésperas do carnaval. Não raras vezes o tema se refere à consagração e unidade, mas não faltam os cremes dentais nos cabelos dos que dormem e o choro arrependido daqueles que vivem um ano de estiagem e no retiro querem todas as chuvas de bênçãos. Como são superficiais os nossos retiros! Nós que queremos ser diferentes acabamos fazendo do retiro apenas um carnaval de crente. Aqui não cabem os desfiles e a fantasia, mas a oportunidade de viver o avesso de um comportamento reprimido pelos dogmas daquilo que chamamos tradição, é intensamente aproveitada. Mas também chega a quarta-feira, e é hora de voltar pra vidinha bem comportada da igreja, com o gosto amargo de quatro dias superficialmente vividos. Pobres crentes!". Apesar de tudo, não se pode negar a presença de Deus. Há momentos de crescimento, integração e alegria espiritual. São raros, mas existem. Há que se reconhecer o aspecto positivo do evento, mas é notória a distância entre o desejado e o realizado. Ficar e lutar, eis a questão! Pode parecer estranho, mas quando me fiz esta reflexão não encontrei um motivo para não ficar, para não lutar. Quem se alimenta muito e não luta fica obesa. O ideal é manter uma regularidade de alimentação e luta. No templo a Igreja aprende, na rua a Igreja ensina, comunica, realiza. Talvez, depois de um carnaval com a nossa participação, o povo aprendesse a não sonhar mais com o próximo carnaval, a azia seria curada pelo doce amor de Jesus, a vida se encheria de razão e a alma se umedeceria de esperança. Não são poucos os testemunhos de vitórias do povo evangélico (inclusive batistas) no confrontamento com as hostes espirituais da maldade. O inimigo tem seu plano estabelecido e a guerra há muito já começou. Vamos tomar posição no "front''. É nosso dever não apenas deixar de fazer o errado, mas fazer o certo. É nosso dever agir! E então, de carnaval em carnaval, a dor vai se tornar prazer, e a poesia vai ser de vida".
Por Ricardo S. MarquesExtraído da revista Unijovem

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